Vila do Conde
Sítios Arqueológicos Castrejos
Castro de São Paio
Visitado a 19 de julho de 2025
O primeiro castro vilacondense explicitado é o Castro de S. Paio, que acabou por integrar esta investigação por ser, tal como referido na análise bibliográfica desta investigação, um exemplo único em todo o território português, já que se trata de um castro marítimo, ou seja, é o único castro português descoberto, até ao momento, construído numa praia e num promontório sobre o mar, à semelhança de outros já encontrados na Galiza, como o Castro de Baroña (Porto de Son) e o Castro de Punta do Muiño do Vento (Vigo). Evidentemente que não possui a dimensão sequer dos seus similares galegos, longe disso. Trata-se de um castro de reduzidas dimensões, com meia dúzia de estruturas visíveis, como habitações de planta circular e vestígios de um fosso e muralha. Outro vestígio também muito interessante descoberto é de um penedo amoladoiro, utilizado para amolar as pontas das lanças para pescar, estando ainda bem demarcadas essas marcas de amolação nesse mesmo penedo no meio da praia. Outra característica bem peculiar deste povoado é a ideia que terá sido utilizado pelos povos normandos na sua invasão à região na Idade Média, como se pode comprovar pela existência de um conjunto de runas viquingues dentro da zona arqueológica. Na sua acrópole foi erigida uma pequena capela, ainda em utilização, com orago a S. Paio, o que poderá ter danificado o castro, à semelhança do que aconteceu com trabalhos arqueológicos amadores ocorridos na década de 80 do século XX. O visitante pode ir visitando e observando as ruínas do castro graças a um passadiço aí colocado, com alguns degraus, que vai tendo ao longo dos mesmos vários painéis informativos em português e inglês, acompanhados de desenhos de reconstrução das ruínas a serem observadas.
Existe ainda no local um pequeno núcleo museológico, inaugurado em 2012, integrado no café/bar de praia aí localizado, onde se encontra exposto o principal espólio descoberto no Castro de S. Paio, dando também a conhecer um pouco da geologia e da biologia do lugar. Na visita efetuada em 2025, ao contrário da visita efetuada em 2022, não foi possível visitar esse núcleo museológico, uma vez que o local está a ser alvo de uma intervenção municipal para o aprimorar. Torna-se até curioso que este tão relevante achado da arqueologia nacional não possua sequer uma classificação de proteção, sendo que atualmente o seu principal inimigo seria a subida do nível médio das águas do mar e a força da erosão marítima. Apresenta-se aqui esta ausência de classificação como a principal falha do município vilacondense para com este povoado castrejo. O Castro de S. Paio deve também ser visto como primeiro contacto de muitos com a arqueologia e cultura castrejas, já que o passadiço que o integra é um ponto incontornável de passagem dos mais diversos peregrinos que realizam o Caminho Português de Santiago da Costa, sendo impossível a quem por aí passa, das mais diversas nacionalidades, não reparar nas ruínas e nos painéis informativos.
Quanto à sua promoção, o concelho de Vila do Conde tem vindo a trabalhar o Castro de S. Paio como um dos seus principais recursos do turismo arqueológico, tendo até disponível nos seus postos de turismo brochuras só a ele dedicadas. No website oficial do Visit Vila do Conde, o Castro de S. Paio é caracterizado como uma joia da arqueologia nacional. Além disso, o município integrou o castro num trilho pedestre concelhio, tendo também colocado um maior número de sinalética rodoviária ao longo das estradas do concelho. O castro, juntamente com a sua praia, já foi alvo de vários artigos na imprensa e, em 2023, o reconhecido website português N Cultura o elencava numa lista de 5 lugares escondidos a descobrir no Norte de Portugal. O município de Vila do Conde também organiza visita guiadas ao local através de marcação prévia.
Em suma, o Castro de S. Paio é sem qualquer dúvida um dos que possui maior potencial turístico, algo que a própria Câmara Municipal de Vila do Conde já notou e que tem vindo a desenvolver. Torna-se num claro exemplo de que a dimensão da área escavada e o número de ruínas visíveis não é o mais relevante para efetuar uma devida proteção e valorização turística do sítio arqueológico, mas sim a sua singularidade e o seu valor histórico, cultural e paisagístico.
Cividade de Bagunte
Visitado a 7 de junho de 2025
Para terminar esta passagem por terras vilacondenses, segue-se a Cividade de Bagunte, classificado desde 1910 como Monumento Nacional. Este é considerado o maior sítio arqueológico do concelho, possuindo inúmeras ruínas visíveis, quer de habitações de planta circular, de planta retangular, linhas de muralha, arruamentos, entre outros. É de facto um castro de grandes dimensões. Os acessos ao local são feitos até ao seu sopé por automóvel, onde existe um parque de estacionamento para veículos ligeiros e para bicicletas e, a partir daí, o acesso é feito por caminhos florestais até ao topo. Na cividade não existe qualquer passadiço que oriente a visitação, o que pode levar o visitante a subir e danificar, voluntariamente ou involuntariamente, as estruturas visíveis. Não existem muitos painéis informativos no assentamento castrejo, mas os que existem estão bem mantidos e possuem informação em português e inglês, bem como desenhos com reconstituições e número de contactos de emergência e de marcação de visitas guiadas. Há é por todo o sítio arqueológicos painéis azuis colocados em estacas de madeira com informações orientadas para um público mais infantojuvenil. Aliás, de acordo com a Dra. Liliana Pereira, da Divisão de Arqueologia da Câmara Municipal de Vila do Conde, o público mais jovem tem sido visto como uma prioridade para a valorização do espaço, já que costumam ser organizadas visitas teatralizadas onde os mais novos poderão conhecer melhor a cividade, ver um "combate" entre castrejos e romanos (representando simbolicamente a chegada do invasor romano) e até moer cereais em mós manuais e fazer uma peça de barro à semelhança do que faziam os castrejos no seu tempo. Além disso, ainda no âmbito da comunidade escolar, entre 2023 e 2025 foi realizada uma ação anual designada de "Vamos Conhecer a Cividade de Bagunte" onde era realizada uma aula ao ar livre orientada por arqueólogos e especialistas, onde vários voluntários se disfarçavam de forma a recordar os ofícios daquela época. Na edição de 2025, de acordo com a Dra. Liliana Pereira, participaram mais de 300 crianças de várias escolas de todo o concelho. Outro pormenor a ter em conta é a construção recente de um centro interpretativo, colocado junto ao parque de estacionamento, no qual serão mais aprofundados os dados conhecidos sobre a cividade, estando de momento ainda ser pronto para ser inaugurado no fim de 2025 ou inícios de 2026. Há que salientar que a Cividade de Bagunte é seguramente um dos sítios arqueológicos visitados que mais evolução teve nos últimos anos.
O local chegou a ser visitado em 2019, 2022 e 2025. Na visita efetuada em 2019, a Cividade de Bagunte estava praticamente abandonada, sendo os acessos muito complicados e a vegetação evasiva de grande quantidade. Na visita feita em 2022, a evolução já era visível. Alguns dos acessos tinham sido alargados para um melhor fluxo de trânsito. O parque de estacionamento já estava construído e o centro interpretativo em construção. Além disso, foram vislumbradas várias equipas de limpeza de vegetação no sítio arqueológico. Por fim, em 2025, o espaço está pronto a inaugurar o seu centro interpretativo, os acessos foram ainda mais melhorados, estavam a ser realizados trabalhos arqueológicos na sua acrópole e notou-se uma forte desmatação e abate de árvores como eucaliptos que antes cobriam o sítio arqueológico, tendo só sido mantidas as espécies autóctones no local. A limpeza arbórea feita permite não só enquadrar melhor o povoado na paisagem, mas também proteger as ruínas de risco de queda de arvoredo e de incêndios florestais, como aquele que assolou a cividade em agosto de 2023. Atualmente, grande parte do seu espólio encontra-se no Centro da Memória de Vila do Conde, onde existe até um vídeo expositivo sobre o passado castrejo do concelho.
Em termos promocionais, para Câmara Municipal de Vila do Conde a Cividade de Bagunte é o sítio arqueológico onde tem investido mais, por ser também monumento nacional e ser o que possui maior dimensão. Por exemplo, a obra de construção do centro interpretativo, juntamente com a construção do parque de estacionamento e a melhoria dos acessos, teve um investimento a rondar os 450 mil euros, suportado por fundos comunitários do NORTE-14-2016-17 – Património Cultural (Infraestrutural). À semelhança do Castro de S. Paio, a Cividade de Bagunte possui uma presença assídua nos materiais promocionais turísticos do concelho, como no website turístico oficial, tendo ainda uma brochura apenas a ela associada. Acresce ainda todas as atividades que têm vindo a ser dinamizadas no local que o procuram divulgar e valorizar turisticamente, realizadas pelo Serviço Municipal de Arqueologia, a APPA-VC – Associação de Proteção ao Património, Arqueologia e Museus de Vila do Conde, a União de Freguesias de Bagunte, Ferreiró, Outeiro Maior e Parada, e pela comunidade escolar vilacondense. A importância da estação arqueológica reflete-se também na vontade política de a colocar sempre na vanguarda dos projetos regionais de promoção da cultura castreja, como na rede de castros criada para a candidatura a património mundial da UNESCO no início do século XXI, como já foi explicitado. Seguidamente, resta apenas salientar que a cividade pertenceu a projetos relevantes de âmbito castrejo como o CASTRENOR, à Rede de Castros do Noroeste, à candidatura à UNESCO e ainda à Rota Castros a Norte, criada em 2025, pela CCDR-Norte.
Em suma, a Cividade de Bagunte é um recurso turístico cada vez mais relevante para o destino Vila do Conde, assumindo-se facilmente como um dos seus principais recursos âncora e alternativos ao turismo de sol e mar. A sua dimensão, o seu excelente estado de conservação, os projetos camarários efetuados e as ações realizadas atribuem a este sítio arqueológico um elevado potencial de usufruição turística.
Espaços Museológicos
Centro de Interpretação de São Paio
Visitado a 7 de junho de 2025
No concelho de Vila do Conde, na freguesia de Labruge, localiza-se o Centro de Interpretação de S. Paio, situado nas imediações do castro homónimo. Tal como foi já explicitado, o Castro de S. Paio é um achado único não só na arqueologia castreja nacional como na arqueologia portuguesa no seu todo, por ser o único castro marítimo descoberto até ao momento. Estas suas características singulares levaram a que a autarquia local se desenvolve um centro de interpretação, aberto desde 2012. Este pequeno museu partilha o edifício com um café-restaurante, cujos proprietários são responsáveis também pela manutenção do espaço museológico. À data da visita ao castro, o centro de interpretação estava encerrado. De acordo com informação dada pela Dra. Liliana Pereira, do município de Vila do Conde, o espaço encontrava-se encerrado por estar sob trabalhos de manutenção. Ainda assim, o centro foi visitado em 2022 aquando da investigação para a dissertação de mestrado. Nessa altura foi possível perceber que o neste espaço existe algum espólio cerâmico descoberto no castro, mas também vários painéis acompanhados de fotografias com informações em português não só sobre a componente arqueológica daquelas dunas e areal, mas também sobre as suas componentes geológicas e biológicas, já que o próprio castro se encontra integrado na Reserva Ornitológica de Mindelo. Salienta-se ainda que a sua entrada era livre de custo, contudo o seu horário de abertura era definido pelo horário de abertura do café-restaurante e a sua entrada era um pouco obstruída pela esplanada desse mesmo estabelecimento comercial. Conclui-se que este espaço é um local interessante para conhecer mais sobre o único castro marítimo português descoberto, mas que peca um pouco pelo amadorismo do seu funcionamento. Contudo prevê-se que após a reformulação do espaço que se encontra a ocorrer, este consiga assumir-se como um importante espaço museológico da cultura castreja do noroeste peninsular.
Centro de Memória de Vila do Conde - Museu de Vila do Conde
Visitado a 7 de junho de 2025
Localizado no centro histórico de Vila do Conde, na Casa de S. Sebastião, está um dos núcleos do Museu de Vila do Conde: núcleo central "Vila do Conde: Tempo e Território", dedicado totalmente à memória histórica da cidade vilacondense. A exposição organizada cronologicamente destaca-se pela sua coleção arqueológica com elementos pré-históricos, proto-históricos e romanos. Na secção do património castrejo, o visitante pode conhecer mais sobre o proto urbanismo do mundo castrejo, utilizando como referências a Cividade de Bagunte e o Castro de S. Paio (já inventariados e analisados) e outros povoados castrejos de menores dimensões como o Castro de Argifonso, o Castro de Ferreiró, o Castro de Santagões e o Castro de S. João. Em exibição, encontram-se expostos cinco torques de prata, descobertos na Cividade de Bagunte; uma corrente de capacete castrejo similar ao de Lanhoso, fragmentos de cerâmica, pesos de rede e ainda um martelo. Na sala da romanização, o destaque tem de ser atribuído a um cepo de âncora descoberto nas margens atlânticas do concelho. Para além da informação presente em português em painéis, existe ainda um pequeno vídeo expositivo sobre o passado castrejo do concelho. O museu, de entrada paga, desenvolve ainda várias atividades lúdicas orientadas para todos os públicos com o intuito de dar a conhecer a memória do território vilacondense, passando obviamente pelo seu passado castrejo. Em suma, este museu é um complemento interessante para quem visita Vila do Conde e pretende conhecer mais sobre o passado arqueológico do concelho e ver algo mais palpável também da Cividade de Bagunte, como o seu importante tesouro de torques de prata.
Bibliografia
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Visit Vila do Conde,
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Available at: https://www.visitviladoconde.pt/fazer/rotas/geo_artigo/rota-do-castro-de-sao-paio
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