Marco de Canaveses
Sítios Arqueológicos Castrejos
Castro de Arados
Visitado a 29 de junho de 2025
O primeiro visitado foi o Castro de Arados, classificado como monumento nacional desde 1910. Situado na freguesia de Alpendorada, o Castro de Arados possui uma dimensão considerável, contudo o sítio arqueológico encontra-se vetado ao abandono. Os acessos ao topo são muito complicados, sendo feitos por caminhos de terra batida de acesso às enormes pedreiras aí existentes numa primeira fase e numa segunda fase por caminhos florestais e pé posto de elevada inclinação. Essa última parte possui ainda vários avisos de perigo de queda, devido à grande proximidade dos mesmos às jazidas de pedra. Quando se chega ao topo é possível vislumbrar as ruínas de uma das suas linhas de muralha, que apesar de ainda estar bem preservada, sobre as mesmas existe uma grande quantidade de vegetação, colocando em risco a ruína. Nas diversas páginas de arqueologia online, é possível ler que também existem no local vestígios de habitações de planta circular, mas à data da visita tais não eram visíveis. Na sua acrópole não se consegue ver nenhuma estrutura do castro, apenas existindo aí um marco geodésico e um baloiço panorâmico, parcialmente destruído, tal como existe noutros castros por esse país fora. Percebeu-se também que o local faz parte de um trilho pedestre concelhio, contudo não existe nenhum painel informativo sobre o recurso patrimonial aí existente. Algo que também merece o seu destaque é sua fantástica paisagem panorâmica, seguramente das melhores vislumbradas ao longo de todo o trabalho de campo.
O recurso encontra-se muito destruído e seguramente a presença de enormes pedreiras nas suas imediações poderá tê-lo destruído ainda mais, sobretudo as suas muralhas externas. Algo também notório é a elevada quantidade de espólio cerâmico, visível no solo, comprovante também da forte romanização sofrida no castro. A riqueza do seu espólio é de tal grandeza, que uma boa parte do mesmo foi levado por Leite Vasconcellos no início do século XX para o Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa. Para o concelho de Marco de Canaveses, o Castro de Arados é como um tendão de Aquiles. Sabe-se da sua existência, sabe-se do risco que sofre, mas nada é devidamente feito para o salvaguardar, por diversas razões, que por vezes fogem do pode de decisão local. A única referência feita pelo município está presente no seu mapa turístico onde o elencam na lista do principal património concelhio. Tal também acontece no website turístico oficial de Marco de Canaveses. Contudo, o castro encontra-se inserido num trilho pedestre, sendo por isso integrado, por vezes, em ações promocionais de pedestrianismo como um dos principais produtos do turismo de natureza marcoense. Devido à inércia política, um grupo de cidadãos marcuenses criou um movimento popular designado de "Guardiões do Castro de Arados", com forte presença nas redes sociais. Tal como já apresentado anteriormente, este movimento tem como objetivo alertar a comunidade marcuense e os decisores políticos, quer locais quer regionais e nacionais, sobre a necessidade de proteger e valorizar esse tão relevante sítio arqueológico. Até ao momento, de acordo com palavras ditas por um dos membros, o Dr. Serafim Oliveira, apenas se conseguiu que se fizesse uma simples limpeza do castro e nada mais. Costumam realizar algumas visitas guiadas ao local, nas quais costumam ter bastantes participantes. Este movimento é um claro exemplo de que a própria comunidade local, conhecedora das suas origens castrejas e da relevância destes assentamentos arqueológicos, se pode juntar e procurar alertar para a valorização destes espaços e organizar eventos e atividades que os dinamizem e protejam. Contudo, tal como foi já explicado, a inércia autárquica não é total, já que se procura de maneira informal tentar resolver os problemas apresentados pela associação, porém como envolve proprietários privados e órgãos estatais, as resoluções não são fáceis, tal como explicado pela Dra. Gorete Babo, em entrevista.
Comparando a visita efetuada em 2022 e a realizada em 2025, o castro encontrava-se na mesma situação vislumbrada, abandonado e coberto de vegetação evasiva. Chega-se à conclusão que o Castro de Arados é um exemplar mais de um monumento nacional que não é tratado como tal pelos decisores políticos. Não é suficiente apenas enumerar o castro no elenco de património cultural edificado no concelho, quando na prática o local encontra-se à mercê da sua sorte, sem nenhum plano ou projeto para realizar devidamente a sua preservação e valorização turística, como é defendido pelos Guardiões do Castro de Arados, cujos trabalhos árduos buscam esse objetivo.
Castro do Freixo
Visitado a 29 de junho de 2025
Por fim e numa situação completamente oposta está o Castro de Tongóbriga (ficha de inventário n.º 40, pág. 885), localizado no interior da cidade romana de Tongóbriga, classificado como Monumento Nacional desde 1986. Bem, este castro é capaz de ser um exemplar único em território português. Trata-se de um povoado castrejo que foi romanizado ao ponto de se converter numa importante cidade romana de grandes dimensões. As próprias ruínas do castro misturam-se com as diversas ruínas romanas da cidade de Tongóbriga, sendo até mais elevado o número de ruínas do período romano do que do período castrejo. O local encontra-se devidamente musealizado e é tutelado pelo Estado, mais concretamente pelo Património I.P., sendo juntamente com a Citânia de Santa Luzia (Viana do Castelo), os únicos geridos por esse organismo estatal. A zona museológica divide-se em três principais áreas: a primeira fica localizado junto à bilheteira e ao respetivo centro interpretativo onde se concentra o maior número de habitações romanas e algumas castrejas de planta circular, sendo a área habitacional mais escavada do sítio arqueológico. Junta-se ainda o centro interpretativo, onde está exposto o principal espólio descoberto (sobretudo romano) e onde se pode ver um vídeo expositivo sobre a cidade romana de Tongóbriga com algumas reconstituições tridimensionais. As informações presentes nos painéis expositivos no centro interpretativo possuem informação em português, inglês e espanhol. Deve-se também destacar que também nesta primeira parte se pode obter um mapa do sítio arqueológico com diversas ilustrações. A segunda parte encontra-se localizada junto às habitações residenciais da aldeia de Freixo, onde se destaca sobretudo a muralha e diversas habitações de planta circular do antigo castro. É a única parte do sítio arqueológica cuja visita é feita sem a necessidade de adquirir bilhete. Por fim, a terceira parte é a mais impressionante e a mais complexa. Nessa última parte estão as ruínas do enorme fórum romano de Tongóbriga e do seu edifício termal. O mais curioso desta parte do sítio arqueológico é a presença de um balneário castrejo no meio das ruínas das termas romanas. Esse balneário ainda é possuidor da sua Pedra Formosa, pouco trabalhada em comparação às restantes descobertas na região. A grande importância da descoberta desse balneário castrejo, para além da raridade desse tipo de edifícios castrejos, é a sua localização no interior do edifício termal, algo que acabou por fortalecer mais a teoria de que essas estranhas estruturas eram de facto balneários e não crematórios, já que não faria sentido contruir todo o edifício termal envolvendo um complexo funerário da Idade do Ferro. Um ponto a ser melhorado seria a criação de uma conexão entre os diversos espaços do sítio arqueológico, já que é necessário voltar à estrada para se seguir para as diversas áreas e esperar que o guia local abre as vedações. Contudo, o facto de o monumento se localizar no centro de uma aldeia ainda habitada também acaba por dificultar essa mesma conectividade.
Todas as ruínas da cidade romana de Tongóbriga se encontram devidamente vedadas e podem ser visitadas por qualquer pessoa com mobilidade reduzida, sobretudo o complexo termal que possui até um passadiço metálico que permite o visitante aproximar-se mais das mesmas. A dimensão e grandiosidade da cidade romana por vezes acabam por ofuscar o povoado castrejo, tal como é visível nas campanhas promocionais realizadas pela autarquia (veja-se o exemplo da sinalética rodoviária localizada à saída da autoestrada que apenas refere Tongóbriga como cidade romana). Mais um exemplo claro que o romano, mesmo nos meios promocionais, acaba por "vender" e atrair mais do que o castrejo. Algo importante também a ser salientado é a importância que teve a escola profissional de arqueologia que aí existiu até ao ano de 2023. Essa escola era um exemplar único em todo o mundo, sendo os seus alunos e professores os grandes arqueólogos da cidade de Tongóbriga. Com o desenvolvimento de cursos profissionais no ensino público, a escola perdeu alunos, acabando por encerrar a sua atividade muito recentemente, deixando o sítio arqueológico num marasmo de descobertas arqueológicas. Veja-se o exemplo da possível descoberta de um teatro romano, que ainda não foi totalmente escavado. Outro ponto negativo visível no local é a escassez de painéis informativos que ajudem o visitante a compreender melhor aquilo que está a ver, sendo que quase que só existe informação junto das ruínas das termas romanas e do balneário castrejo. Acredita-se que tal número reduzido de painéis informativos se possa justificar pela presença de um mapa de auxílio ao visitante. Tongóbriga serve como uma joia da coroa do património arqueológico da região, mas acredita-se uma vez mais que tal se deve pela sua forte componente romana. Será que se esta não fosse da dimensão que é, teria tido a mesma atenção e investimento que teve ao longo dos anos? Talvez não, pois apenas o castro não seria tão chamativo, servindo de exemplo as ruínas do Castro de Arados, apresentado anteriormente, no mesmo concelho. Por isso, em termos promocionais, o sítio arqueológico possui o seu próprio wesbsite oficial, onde o visitante poderá obter mais informações históricas sobre o local. Existe uma aba designada de "As Origens de Tongóbriga" onde se pode conhecer mais sobre a origem do seu nome, a constituição do povoado castrejo, o balneário castrejo e a sua integração no Império Romano. Parece de facto muita informação, mas bem mais reduzida do que aquela que existe na aba de "Tongóbriga Romana". Além disso, este sítio arqueológico é dos poucos aqui apresentados com uma página dedicada no website oficial do Turismo de Portugal, na qual se dá destaque ao balneário castrejo e se utiliza muito mais o termo "pré-romano" em vez do termo castrejo (tal como foi também analisado noutro balneário apresentado anteriormente). A página oficial turística da Câmara Municipal de Marco de Canaveses faz uma descrição detalhada do sítio arqueológico, dando forte ênfase ao balneário castrejo. A cidade romana de Tongóbriga e o devido castro e balneário também já foram alvo de programa televisivos.
Na visita efetuada ao local no ano de 2022, apenas se visitou a zona arqueológica de acesso gratuito, onde se encontra algumas ruínas de habitações castrejas de planta circular, uma vez que as outras zonas museológicas se encontravam encerradas. Conclui-se, portanto, da mesma forma como se começou, que o Castro de Tongóbriga é um exemplar único no noroeste português e até peninsular, onde um castro se acabou por converter numa imponente cidade romana, o que terá levado e bem a sua musealização e valorização turística por parte do município primeiramente e depois por parte até do próprio Estado Português. Apesar de ainda existirem algumas lacunas a serem melhoradas, o projeto de musealização é muito bem conseguido, integrando na narrativa tanto o passado castrejo como o passado romano, sendo o último aquele que tem mais enfoque, devido também a ser aquele com um maior número de ruínas visíveis. O seu potencial turístico é inegável, podendo até ser apresentada como uma mistura de Conímbriga com a Citânia de Briteiros, pelo seu relevante legado castrejo-romano para a região turística onde se insere do Porto e Norte de Portugal.
Bibliografia
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Municípios do Douro e Tâmega, s.d. Castro dos Arados / Alto de Santiago. [Online]
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Available at: https://visit.marcodecanaveses.pt/discover/architectural-heritage/castro-de-arados
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Câmara Municipal de
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Available at: https://visit.marcodecanaveses.pt/marco-tour/aldeia-do-freixo-cidade-romana-tongobriga
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Available at: https://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=3961
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Dois Rios Dois
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Available at: https://doisriosdoismosteiros.blogspot.com/p/castro-de-arados.html
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Freguesia de
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Available at: https://www.jf-alpendorada.pt/visitar/patrimonio/castro-de-arados/
[Acedido em 30 agosto 2025].
Património Cultural
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Turismo de Portugal,
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Available at: https://www.visitportugal.com/pt-pt/content/estacao-arqueologica-do-freixo-tongobriga
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Turismo do Porto e Norte de Portugal, s.d. Castro dos Arados/Alto de Santiago. [Online]
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Turismo do Porto e Norte de Portugal, s.d. Cidade Romana de Tongobriga. [Online]
Available at: https://www.portoenorte.pt/pt/o-que-fazer/cidade-romana-de-tongobriga/
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