Breves Informações sobre a Cultura e o Património Castrejo
O termo cultura castreja é apresentado pela primeira vez por Bosch Gimpera (1932) para conceptualizar, de certa forma isolar no mundo arqueológico ibérico, a proto-história da região do noroeste da Península Ibérica. São elementos caracterizadores desta cultura o património castrejo, como as citânias, as cividades e, sobretudo, os castros. Estes são apresentados por Alberro & Cólera como um "[…] tipo habitacional específico [...]" (2008: 40-41) que estaria integrado num sistema defensivo bastante complexo. De forma mais esclarecedora, Lemos (2008) apresenta os castros como habitats fortificados que estariam localizados em cumes dominantes sobre a área envolvente, possuindo assim domínio estratégico sobre os corredores naturais de circulação, como os recursos hídricos. Até ao momento, em termos de posicionamento estratégico, foram encontrados castros que se encontram localizados junto a nascentes de rios e próximos de cursos fluviais, bem como castros que se denominam de marítimos por estarem posicionados em falésias, praias e promontórios à beira-mar. Estes últimos são considerados de elevada raridade. As citânias, também já apresentadas, seriam povoados castrejos de grandes dimensões, cuja formação se deveu à junção de várias pequenas comunidades castrejas provocada pela ameaça crescente das legiões romanas (Lemos, 2008). Surge ainda o conceito, menos comum, de cividade que oriunda do latim civitate, que significa cidade e costuma ser atribuído a assentamentos castrejos que sofreram um grande impacto com a romanização.
Quanto à localização da cultura castreja, esta encontra-se bem definida pelos arqueológos e estudiosos, apesar de existirem algumas discordâncias quanto às suas fronteiras. Lorrio (1991) inclui na esfera castreja a atual Galiza, o Norte de Portugal e a parte ocidental das Astúrias, servindo-se os rios Navia, a este, e Douro a sul como fronteiras. Lemos (2008), por sua vez, adiciona a região das Astúrias por completo e acrescenta as províncias de Zamora e León. Outros, como Silva (1986), defendem que a regiões drenadas pelo rio Vouga e Dão poderão também ser consideradas como áreas da Cultura Castreja.
Relativamente às suas origens, calcula-se que os primeiros castros terão surgido ainda na Idade do Bronze, num período apresentado por Maluquer de Motes (1973) como "Castrexo I", onde as habitações seriam construídas em materiais vegetais. Segue-se o período "Castrexo II", entre o séc. V e séc. I a.C., caracterizado pelo intenso contacto dos povos castrejos com outros povos, como os fenícios e os cartagineses. Surgem neste período as habitações de planta circular e as primeiras muralhas defensivas. De seguida, o período "Castrexo III", que se inicia nos anos 138-136 a.C. com a primeira invasão romana no território. Por fim, o "Castrexo IV" inicia-se com a conquista da região por César Augusto no ano 19 a.C. e caracteriza-se pela romanização dos povoados e abandono da sua larga maioria.
A questão da população destes povoados é muito interessante e amplamente discutida entre historiadores e arqueológos. Uma das ideias mais defendidas é o celticismo dos castros, ou seja, que estes seriam habitados por povos celtas oriundos da Europa Central. A existência de vários achados arqueológicos descobertos nestes lugares com elementos característicos da Cultura do Campo das Urnas e de La Tène ajudam no fortalecimento desta ideia. A outra teoria existente é a de que os habitantes destes castros seriam povos endógenos, que ao longo dos séculos, foram absorvendo traços culturais de outros povos, incluindo os celtas da Europa Central, como deuses e teriam aspetos linguísticos em comum através de contactos comerciais, guerras, entre outros. Esta ideia foi defendida desde o início por Francisco Martins Sarmento (1891), por Lemos (2008) e Ruibal (2003) que apontam a inexistência de vestígios cerâmicos célticos na região para justificar a sua opinião. De forma a não gerar desacordo, o termo que aqui é utilizado é de povo castrejo.
A cultura castreja do noroeste peninsular possui vários elementos caracterizadores que a distinguem do resto da proto-história peninsular e europeia. Um desses elementos são os raros e enigmáticos balneários castrejos. Estes edifícios de pequenas dimensões, constituídos por câmaras e antecâmaras, ter-se-iam inspirado nos banhos termais romanos. A divisória das suas câmaras é conhecida por "Pedra Formosa" e é considerada um dos melhores elementos decorativos de todo o mundo castrejo. Segundo Silva (2019), apenas são conhecidos cerca de três dezenas em toda a região. Inicialmente, estes lugares eram associados a crematórios fúnebres, devido à sua localização afastada dos centros dos povoados, mas a presença de nascentes de água e tanques junto deste veio fortalecer a tese que seriam balneários. Deve-se salientar que, até à data, não existem vestígios que comprovem como seriam os ritos funerários destes povos. Independentemente da sua utilização, estes edifícios são uma das mais relevantes características da Cultura Castreja (Silva, 1995).
Outra característica única da Cultura Castreja do Noroeste Peninsular são as estátuas de guerreiros. A guerra e os saques de outros povoados faziam parte do quotidiano destes povos. Estrabão chegou a referenciar o carácter bélico dos povos castrejos. Sabe-se que utilizavam espadas, punhais, escudos e capacete, como são prova os variados achados arqueológicos neste sentido. Outro elemento que permite fazer a figuração destes guerreiros são as estátuas que foram sendo descobertas nos castros, normalmente representados com espada ou punhal e um escudo. Surgem, na sua maioria, com torques ao pescoço e alguns com capacete. As estátuas descobertas em Boticas, presentes no Museu Nacional de Arqueologia, são os melhores exemplares descobertos em território nacional. Lemos (2008) apresenta-as como uma das característica mais peculiares da Cultura Castreja.
