Esposende
Sítios Arqueológicos Castrejos
Castro de São Lourenço
Visitado a 13 de julho de 2025
Começando mesmo pelo seu ex-líbris: o Castro de S. Lourenço, estudado nesta investigação por ser Imóvel de Interesse Público desde 1986. De facto, quando se visita este sítio arqueológico, percebe-se porque é uma referência da cultura castreja do noroeste peninsular e porque era um dos poucos castros candidatos a Património Mundial da UNESCO. O lugar onde se implanta é amplamente histórico, possuindo não só ruínas castrejas, como romanas e até medievais do tempo da Reconquista Cristã. O castro possui várias ruínas espalhadas pelo local e com o auxílio de vários painéis informativos com informação em português e inglês (e códigos QR com informação em francês) é possível entender a história desse espaço.
Uma das principais características do Castro de S. Lourenço é o facto de ser o povoado castrejo português com o maior número de casas castrejas reconstruídas, umas de planta circular, outras de planta retangular e também de planta ovalada, com telhados de colmo. Para além da reconstrução, algumas dessas habitações, dentro, possuem como decoração alguns adereços castrejos, como escudos e lanças, mas também cerâmicas. Algumas casas, aquando da construção da estrada de acesso à capela que se situa na sua acrópole (cuja construção poderá ter levado a uma certa destruição do povoado), foram parcialmente destruídas, sendo posteriormente marcado no solo o desenho da sua forma que foi eternamente danificada.
O local possui também logo à entrada um centro interpretativo dedicado ao castro, com uma sala sobre a cultura castreja esposendense e outra dedicada à arqueologia marítima do concelho. Este centro interpretativo organiza visitas guiadas ao local, sendo normalmente também responsável por abrir e fechar as casas reconstruídas. Um dos poucos pontos negativos a apresentar é o facto de existir um passadiço, que está localizado numa parte junto a umas das suas ruínas, estar parcialmente destruído, não sendo possível o seu acesso, impossibilitando a visita a uma parte do sítio arqueológico. O castro pode ser facilmente visitado na generalidade por pessoas de mobilidade reduzida, contudo o acesso às casas reconstruídas esse já não é possível. Deve-se também salientar que o Castro de S. Lourenço é um dos poucos existentes em Portugal com um sistema de monitorização de visitantes (eco contadores) que permite contabilizar a quantidade de pessoas que visitam o castro a qualquer hora, já que o sítio arqueológico é de livre acesso a qualquer hora do dia. De acordo com a Dra. Ana Almeida, do Município de Esposende, o Castro de S. Lourenço, em 2024, recebeu 94 518 visitantes. Este número é de facto impressionante! Para se ter uma ideia, o Museu Monográfico de Conímbriga, em Condeixa-a-Nova (um dos mais conhecidos sítios arqueológicos portugueses), em 2023, recebeu apenas mais 3 mil visitantes que o Castro de S. Lourenço.
Além disso, o Castro de S. Lourenço é um recurso vislumbrado pelo concelho de Esposende como muito relevante e um produto alternativo ao turismo de sol e mar (principal tipologia de turismo desse concelho). A sua importância levou também a criação de outras estruturas de apoio no local, como a construção de casas de banho e de parque de estacionamento e de merendas. O castro costuma receber várias atividades ao longo do ano organizadas pelo município sobretudo com a sua comunidade escolar, mas também com a comunidade científica, como por exemplo com a organização de eventos no âmbito das Jornadas Europeias do Património. Outro ponto relevante a destacar é o facto de o Castro de S. Lourenço ser o palco do maior evento de animação castreja realizado em Portugal: o "Galaicofolia, 2000 Anos de Festa!", que tem vindo a atrair cada vez mais visitantes, apesar de começar, de acordo com a Dra. Ana Almeida, a ser visto como uma preocupação, por se tratar de um momento de sobrecarga do sítio arqueológico.
A promoção do Castro de S. Lourenço apresenta-o como um dos principais recursos esposendenses, tendo até uma sinalética rodoviária na autoestrada aí próxima. Aliás no guia turístico de Esposende, este povoado castrejo é apresentado como um dos recursos turísticos do seu Top 5 a visitar e a conhecer. Contudo, a Dra. Ana Almeida acredita que nessa matéria que ainda existe trabalho que deve ser feito, sendo necessário elaborar uma "[…] estratégia de marketing e comunicação do património - considerando a concentração da oferta cultural, a distribuição direta e distribuição eletrónica - e a imagem de promoção, tendo em conta os objetivos da comunicação e o posicionamento do Património Cultural […]". Além disso, Esposende acredita que um dos maiores desafios do Castro de S. Lourenço é a sua integração em rotas e itinerários turístico-culturais a nível regional, nacional e, até mesmo, internacional. Atualmente, o castro também se encontra eternizado na toponímia esposendense com o arruamento designado de "Rua Castro de São Lourenço".
Em termos de comparação com a visita efetuada a este castro em 2022 e em 2025, deve-se apenas salientar que os equipamentos e painéis são basicamente os mesmos, tendo sido apenas acrescentadas as casas de banho. Por sua vez o passadiço estava em 2022 acessível, enquanto que em 2025, tal como apresentava anteriormente, este se encontrava muito degradado, sendo proibido o seu acesso. Destacar ainda que o castro foi sempre um importante porta-estandarte da cultura castreja em diversos projetos nacionais e internacionais, como o CASTRENOR, a Rede de Castros do Noroeste e a candidatura a Património Mundial da UNESCO. Em 2025 foi incorporado no projeto da Rota Castros a Norte da CCDR – Norte.
Em suma, o Castro de S. Lourenço é sem dúvida uma referência, não só como sítio arqueológico castrejo relevante, mas também quanto à sua gestão e musealização, procurando cada vez mais atrair mais visitantes, criando estruturas de apoio necessárias a receber qualquer turista, de forma a afirmar-se como um importante recurso turístico na região do noroeste peninsular. Com o seu largo número de visitantes e ainda com os eventos que organiza, o Castro de S. Lourenço acaba por sofrer problemas distintos da grande maioria do património castrejo português, como, por exemplo, vários picos de elevada pressão de visitantes que acabam por colocar em causa a sua capacidade de carga e até sua boa conservação.
Castro do Senhor dos Desamparados
Visitado a 13 de julho de 2025
Continuando no concelho de Esposende, segue-se o Castro do Senhor dos Desamparados, localizado na freguesia de Palmeira de Faro, selecionado para esta investigação por ser promovido pelo concelho de Esposende como um relevante produto turístico, ainda que não esteja classificado, como será explicitado mais adiante. Este castro claramente não possui a dimensão e a monumentalidade apresentadas pelo Castro de S. Lourenço, contudo não deixa de ser um sítio arqueológico relevante. À semelhança do castro esposendense anteriormente apresentado, o Castro do Senhor dos Desamparados é também trabalhado como um importante recurso turístico do destino. O monte onde se encontra localizado é limpo e mantido constantemente, existindo aí vários painéis informativos em português e inglês (e com códigos QR com informação em francês) que explicam o castro a quem o visita. No local existe ainda um parque de merendas e ainda outras pequenas estruturas de apoio, sobretudo à Capela do Senhor dos Desamparados, que se encontra na acrópole do próprio castro. Não existem muitas habitações escavadas, mas mesmo assim conseguem ter uma ideia generalizada do povoado. Acredita-se que a construção da capela e de algumas habitações ao redor desse pequeno monte poderão ter destruído parcialmente algumas partes do povoado, sobretudo as suas linhas de muralha.
O castro possui também uma história muito interessante, pois acredita-se que o povo de Palmeira de Faro terá usado as suas ruínas para se proteger dos solados franceses aquando da 2ª Invasão Napoleónica a Portugal, quase numa alegoria ao que os seus habitantes originais terão feito aquando da chegada das legiões romanas.
Quanto à sua promoção, a Câmara Municipal de Esposende promove-o como um importante recurso turístico, ainda que não seja promovido da mesma forma e relevância do Castro de S. Lourenço. No guia turístico de Esposende, Castro do Senhor dos Desamparados aparece apenas na página dedicada ao património da freguesia de Palmeira de Faro. Contudo, é o único castro esposendense que aparece nos recursos a visitar no website oficial do Eixo Atlântico. O ponto negativo que o investigador acreditar ser o seu principal é o facto de o sítio arqueológico não possuir qualquer proteção de classificação e não se encontrar sequer em vias de classificação, o que significa que o município de Esposende ainda não iniciou qualquer trabalho nesse sentido, de forma a proteger o assentamento castrejo e a sua envolvente, esta com a criação de uma zona de proteção. Além disso, apesar da reforma efetuada ao monte, com a melhoria de acessos, calcetando-os e definindo um percurso de visitação, não existe nenhuma barreira que impeça o visitante de subir para as ruínas, provocando acidentalmente ou não a destruição do sítio arqueológico. O castro, em comparação à visita realizada em 2022, encontra-se de facto mais limpo e com novos painéis informativos, na visita realizada em 2025.
Em suma, o Castro do Senhor dos Desamparados é um sítio arqueológico com um grande potencial para contar não só a história da Cultura Castreja, mas também a história da Invasões Francesas à região, como um recinto defensivo ao longo das várias eras, podendo ter um papel tão relevante como o próprio Castro de S. Lourenço. Contudo é necessário não só desenvolver mais trabalhos arqueológicos no local como também efetuar o seu processo de classificação para proteger o castro de qualquer decisão que ponha em causa a sua existência e usufruto pelas gerações atuais e as gerações futuras.
Cividade de Belinho
Visitado a 13 de julho de 2025
Por fim, em Esposende, existe ainda a Cividade de Belinho, localizada a norte do concelho, elegido para ser investigado por ser classificado como Imóvel de Interesse Público, desde 1986. Enquanto que o Castro de S. Lourenço e o Castro do Senhor dos Desamparos se encontram sob atenção do município esposendense, a Cividade de Belinho já não possui a mesma preocupação. Chegar ao próprio castro é também desafiante, pois se encontra localizado no alto de um pequeno monte, cujos acessos se encontram cobertos de uma elevada quantidade de vegetação evasiva, sendo até muitas vezes de difícil transposição. Uma parte dos próprios acessos possui arvoredo caído, o que até poderia ser visto como uma previsão do que iria ver no sítio arqueológico em si.
Apesar de ser um Imóvel de Interesse Público, a Cividade de Belinho está completamente arruinada, sendo essa a situação vislumbrada quer na visita realizada em 2022, quer na visita realizada em 2025. As suas ruínas são ligeiramente visíveis entre os escombros de algumas árvores que aí tombaram e a vegetação evasiva que aí o tenta tapar. Na verdade, são muito poucas as ruínas aí existentes. É até estranho imaginar que num concelho como Esposende onde existem grandes exemplos de gestão, conservação e valorização turística do património castrejo exista um sítio arqueológico em tal estado. Numa resposta dada pela Dra. Ana Almeida poderá estar a solução desse enigma. Nessa resposta afirma-se que existe um produto turístico estruturado no património castrejo cuja propriedade seja total ou parcialmente pública, ou seja, uma vez que a Cividade de Belinho é propriedade privada, acabou por não ser alvo de uma estratégia de reabilitação e valorização à semelhança dos outros dois castros acima apresentados. Em termos de promoção e sinalética, o assentamento castrejo é como se não existisse, estando apenas referenciado ligeiramente como uma sugestão de passagem de um trilho pedestres concelhio.
Em suma, a Cividade de Belinho poderia perfeitamente ser mais um importante recurso turístico de Esposende, caso tivesse sido perfeitamente efetuada a sua preservação e valorização. Contudo, devido a um impasse, seguramente à semelhança do que foi apresentado no caso do Castro de Monte Redondo (Braga), encontra-se um limbo e à mercê dos agentes de erosão natural.
Espaços Museológicos
Centro Interpretativo de São Lourenço
Visitado a 13 de julho de 2025
Localizado à entrada do Castro de S. Lourenço, o Centro Interpretativo de São Lourenço é o único museu de arqueologia do concelho de Esposende. O espaço museológico possui duas salas distintas: a primeira é totalmente dedicada à temática castreja, sendo o nome dessa coleção "O Homem e o Território: Esposende nas Origens da Cultura Castreja". Através de quadros e painéis informativos, acompanhados de mapas e desenhos, o visitante poderá conhecer mais sobre os povos pré-romanos em Portugal e no noroeste português e como ocorreu o povoamento do território esposendense na Idade o Ferro, usando como referências a Cividade de Belinho, o Castro de S. Lourenço, o Castro do Senhor dos Desamparados e outros povoados de Esposende. A explicação da ocupação do território de Esposende segue uma evolução cronológica que vai desde o Calcolítico à Idade do Ferro, passando pela Idade do Bronze e terminando pela romanização. Apesar dos painéis se encontrarem em português, à entrada é possível obter a mesma informação em inglês e francês através de códigos QR.
Na segunda sala encontra-se a exposição "Mar de Histórias" dedicado à arqueologia marítima do concelho, onde se destaca no seu espólio, uma salina móvel descoberta na Praia de Belinho, utilizada para obter sal. Outra peça que se destaca é um colar de 27 contas feito em pasta de vidro e folha de ouro, descoberto no próprio castro. Apesar de provavelmente já pertencer ao período de ocupação romana do povoado, a sua riqueza é inegável, sendo apenas descobertos colares semelhantes em zonas distantes como no Egito e na ilha de Rodes. Essa exposição pode também ser acompanhada através da leitura de códigos QR em português, inglês e francês. A visita ao centro interpretativo é totalmente gratuita, sendo ainda possível obter outras informações mais detalhadas sobre o castro também a através da leitura de códigos QR, disponibilizados à entrada. Os técnicos aí presentes realizam constantemente visitas guiadas ao espaço museológico, bem como às casas reconstruídas do castro, que possuem alguns adereços decorativos, com o intuito de mostrar como era a sociedade e o quotidiano castrejo.
Em suma, o Centro Interpretativo de S. Lourenço é um ponto de passagem obrigatória não só para conhecer mais sobre o Castro de S. Lourenço, mas também de toda a cultura castreja do noroeste português em geral.
Bibliografia
Almeida, C., 1994. Castro de S. Lourenço de Vila Chã. Informação Arqueológica. Volume 9, p. 78.
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"Galaicofolia" no Castro de S. Lourenço recebe milhares de
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